O Cortisol, também conhecido como “hormônio do estresse”, é produzido e liberado pelo córtex da glândula adrenal em certos níveis fisiológicos ao longo do dia, para haver a ativação das vias metabólicas dependentes desse hormônio.
A liberação do Cortisol ocorre através de um ciclo circadiano, sendo que em algumas horas do dia sua liberação é mais intensa (como pela manhã, podendo ter um aumento de até 70% nos 30 minutos iniciais ao acordar), retornando à linha de base do despertar dentro de 60 a 75 minutos e declinando gradualmente depois disso.

Sobre a liberação do Cortisol
Quando estamos em situações de “perigo”, o Cortisol é liberado a fim de preparar o nosso organismo, mantendo a pressão e diminuindo a queima calórica para poupar energia. O grande problema desse contexto de liberação do hormônio é que o organismo humano não está apto a diferenciar situações de riscos reais ou riscos aparentes.
Estresses psicológicos e físicos aumentam, portanto, os níveis de Cortisol circulante. No estado agudo, o aumento desse hormônio induz a respostas adaptativas por meio do aprimoramento dos processos catabólicos para fornecer mais energia ao corpo.
Em geral, os níveis aumentados de Cortisol retornam aos níveis basais por mecanismos de inibição por feedback através do hipotálamo, córtex pré-frontal e, mais importante, hipocampo.
Quais as consequências da liberação desregulada desse hormônio?
Quando estímulos estressantes são repetidos cronicamente, o Cortisol circulante é mantido em níveis mais elevados durante um período prolongado, o que pode levar a danos no hipocampo e em neurônios corticais, que são as principais regiões onde a inibição de feedback começa.
Como resultado, mesmo quando os estímulos desaparecem, os níveis de Cortisol podem ser mantidos além da faixa fisiologicamente normal, devido a um ciclo vicioso causado pelo mecanismo de feedback já danificado.
Esse hormônio pode apresentar, portanto, dois tipos de ações:
1) promover ou preparar efeitos permissivos para responder ao agente estressante, como produzir glicose, aumentar a frequência cardíaca, a consciência e a acuidade neural;
2) efeitos supressivos, incluindo ativação de defesa, mecanismos para evitar superação ou danos ao corpo, como respostas anti-inflamatórias.
Estes efeitos anti-inflamatórios estão relacionados à indução da produção de lipocortina, inibidor da fosfolipase A2, que libera ácido araquidônico dos fosfolipídios para produzir prostaglandinas e leucotrienos.
Reduz, então, a quantidade de leucotrienos e prostaglandinas, necessários no processo inflamatório. Além disso, o cortisol inibe a produção de Interleucina-2 (que tem efeitos inflamatórios) e a produção de linfócitos T.
Além disso, promove, também, o bloqueio da secreção de histamina e serotonina por mastócitos e plaquetas.

Outros fatores mais sobre a desregulação do Cortisol
Um fato a considerar é que o Cortisol atua no sistema nervoso central (SNC) e promove a diminuição do sono REM por aumento do estresse celular. Quando os níveis de Cortisol circulantes estão acima do nível saudável, há um quadro de estresse crônico que impede a entrada no sono REM no período adequado.
Desse modo, o indivíduo não recebe os benefícios do sono e cria-se, então, um ciclo de estresse crônico de debilitação da saúde cortical do paciente.
Outrossim, em níveis baixos, seus efeitos são visíveis pela diminuição do metabolismo corporal, visto clinicamente como fadiga, falta de apetite, hipoglicemia e PA baixa. Na tabela a seguir, é possível observar alguns dos efeitos da desregulação do cortisol.
| Categoria | Níveis de Cortisol | Níveis de Cortisol | Autores |
| Saúde mental | Alto | Diminuição dos níveis hipocampais | Handley et al. (2016), Eid et al. (2019) |
| Saúde mental | Alto | Resposta aos estressores psicossociais | Ng et al. (2018); Yim (2016); Wiley et al. (2016); Adam et al. (2017); Uthaug et al. (2020) |
| Saúde mental | Alto | Ansiedade | Adam et al. (2017) |
| Saúde mental | Alto | Distúrbios do sono da infância | Oh et al. (2018) |
| Saúde mental | Alto | Transtorno depressivo | Eid et al. (2019); Wiley et al. (2016); Adam et al. (2017), Redpath et al. (2019) |
| Saúde mental | Alto | Desequilíbrios no desenvolvimento psicomotor | Redpath et al. (2019) |
| Saúde mental | Alto | Diminuição da síntese de esteroides anabolizantes | Whitham et al. (2020) |
| Saúde mental | Alto | Ausência de cuidados maternais | Noro & Gon (2015) |
| Saúde mental | Alto | Influencia as associações entre o estresse no pré-natal e o Cortisol na prole | Berg et al. (2017) |
| Saúde mental | Alto | Atinge a saúde psicológica dos cuidadores | Park et al. (2018) |
| Saúde mental | Alto | Redução do triptofano plasmático | Ormstad et al. (2016) |
| Saúde mental | Baixo | Problemas cognitivos, de saúde mental e comportamental | Whitham et al. (2020); Chabre et al. (2017); Adam et al. (2017) |
| Saúde mental | Baixo | Melhora os sintomas de ansiedade e depressão | Redpath et al. (2019), Yim (2016) |
| Saúde mental | Baixo | Melhora do bem-estar | Fancourt et al. (2016); Cheng et al. (2019) |
| Imunidade | Alto | Redução na ação das células de defesa | Whitham et al. (2020), Gomaa et al. (2019) |
| Imunidade | Alto | Aumenta o risco de inflamação periodonta | Gomaa et al. (2019) |
| Imunidade | Baixo | Resposta aumentada de células NK | Oh et al. (2018), Ng et al. (2018); Adam et al. (2017) |
| Imunidade | Baixo | Progressão do câncer | Adam et al. (2017) |
| Imunidade | Baixo | Risco de doenças inflamatórias e susceptibilidade a certos patógenos | Whitham et al. (2020); Chabre et al. (2017); Adam et al. (2017) |
Aumento de Cortisol e saúde geral do organismo
O Cortisol é, portanto, um indicador de vários efeitos que desregulam o sistema homeostático. É importante salientar que as oscilações, tanto para aumento, quanto para a redução dos níveis de Cortisol, podem acarretar efeitos negativos na saúde mental e no equilíbrio imunológico.
Porém, notam-se efeitos negativos mais acentuados quando os níveis de Cortisol estão altos, especialmente na saúde mental. Por outro lado, níveis baixos de Cortisol podem ter um efeito negativo significativo no sistema imunológico.
Portanto, pode-se pontuar que o equilíbrio dos níveis de Cortisol torna-se imprescindível para a
manutenção da saúde mental e da homeostase imunológica. A resposta inflamatória é uma parte fundamental da defesa do organismo contra infecções e lesões teciduais.
A regulação hormonal pode desempenhar um papel crucial na modulação da intensidade e duração dessa resposta, atuando para uma reação adequada e controlada. Além do Cortisol, os esteroides sexuais, incluindo Estrógenos e Testosterona, também influenciam a resposta inflamatória.

Tratamentos para níveis elevados de Cortisol
As terapias endócrinas têm sido exploradas como uma abordagem promissora para modular a resposta imune em uma variedade de condições, incluindo doenças autoimunes, inflamatórias e neoplásicas.
Essas terapias visam interferir nos mecanismos moleculares subjacentes à interação entre hormônios endócrinos e sistema imunológico, com o objetivo de restaurar o equilíbrio e prevenir ou tratar distúrbios imunológicos.
Os corticosteroides têm potentes efeitos imunossupressores, inibindo a atividade de células imunes e a produção de citocinas inflamatórias. Além disso, outras terapias endócrinas, como a terapia de reposição hormonal na menopausa e a suplementação de Vitamina D em pacientes com deficiência, têm sido investigadas por seus potenciais efeitos na modulação da resposta imune.
Essas abordagens terapêuticas representam uma maneira inovadora de tratar doenças com base em mecanismos imunológicos subjacentes, oferecendo novas opções de tratamento para pacientes que não respondem adequadamente às terapias convencionais.
Os hormônios sexuais, como os Estrogênios e a Testosterona, podem exercer influências distintas na resposta imune, com importantes implicações para a saúde masculina e feminina. Os Estrogênios, por exemplo, têm sido associados a efeitos imunomoduladores positivos, como a promoção da resposta imune adaptativa e a redução da inflamação.
O que diz a ciência?
Estudos mostraram que os estrogênios podem aumentar a produção de anticorpos e a atividade de células T, além de influenciar a expressão de genes relacionados à imunidade.
Por outro lado, a Testosterona geralmente exerce efeitos supressores sobre a resposta imune, embora o papel exato desse hormônio na imunidade ainda não esteja totalmente esclarecido.
Alguns estudos sugerem que a Testosterona pode atenuar a resposta inflamatória, reduzindo a produção de citocinas pró-inflamatórias e a atividade de células imunes, enquanto outros indicam que ela pode modular a resposta imune de maneira mais complexa.
Essa diferenciação nos efeitos dos hormônios sexuais na resposta imune pode contribuir para explicar diferenças na suscetibilidade a doenças autoimunes, infecções e outras condições imunomediadas entre homens e mulheres.
Assim, compreender os mecanismos pelos quais os hormônios endócrinos interagem com o sistema imunológico pode abrir novas perspectivas para o desenvolvimento de tratamentos direcionados e personalizados para uma variedade de condições médicas.
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Referências bibliográficas
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DE SOUZA, Emídio José et al. Níveis de Cortisol: impactos sobre a Saúde Mental e aImunidade/Cortisol Levels: Impacts on Mental Health and Immunity. ID on line. Revista de Psicologia, v. 14, n. 53, p. 935-949, 2020.
DOS REIS, Pedro Otavio Ribeiro et al. O cortisol associado ao sono REM e NREM: uma revisão dos fatores que influenciam o período circadiano. Research, Society and Development, v. 13, n. 5, p. e4413545742-e4413545742, 2024. Disponível em: aqui.





