O processo fisiológico de inflamação é vital, pois defende e protege o organismo humano contra agentes agressores. Porém, quando expresso em condições crônicas, apresenta uma série de prejuízos para a saúde, como risco aumentado de doenças cardiovasculares, diabetes, hipertensão arterial, doença renal crônica, demência e depressão.
Dentre os fatores de risco que induzem uma condição inflamatória subclínica, destaca-se a alimentação inadequada, sono insuficiente, estresse crônico, tabagismo, senescência, inatividade física, resistência insulínica, obesidade, entre outros.
O que é inflammaging?
O inflammaging resulta de um conjunto de mecanismos interligados, destacando-se a imunossenescência, que combina declínio da imunidade adaptativa com hiperatividade da resposta inata. Esse desequilíbrio favorece a liberação contínua de citocinas pró inflamatórias, como IL-6 e TNF-α, mesmo sem infecções ativas, gerando desgaste orgânico.
Além disso, alterações na microbiota, acúmulo de células senescentes e disfunções mitocondriais contribuem para o estado inflamatório crônico.
Assim, o inflammaging não corresponde a uma inflamação aguda, mas, sim, a uma ativação imune contínua e silenciosa, originada por disfunções mitocondriais, acúmulo de células senescentes, alterações na microbiota intestinal e estímulos antigênicos prolongados.
Portanto, trata-se de um desequilíbrio homeostático que precede e contribui para o estado inflamatório crônico, afetando diretamente a saúde.
E como esse processo inflamatório acontece?
Esse processo está associado à fragilidade, sarcopenia, declínio cognitivo e maior risco de morbidades. A inflamação crônica compromete a homeostase e acelera o catabolismo muscular, fatores essenciais para a perda funcional em idosos.
Ainda, há o impacto psicológico: estudos identificaram a associação entre fragilidade e sintomas depressivos. Além de que doenças respiratórias crônicas, agravadas por inflammaging, elevam a vulnerabilidade clínica.
Quando o processo inflamatório afeta ou inicia indiretamente no sistema nervoso central (SNC), chama-se de neuroinflamação. A neuroinflamação está associada à patogênese de diversas disfunções neurológicas agudas ou crônicas, incluindo o Alzheimer, Parkinson, depressão, ansiedade e evidências recentes têm demonstrado possíveis relações com esquizofrenia.
Destaca-se que a neuroinflamação somada ao estresse oxidativo resultam em danos potenciais bem como declínio progressivo das funções neuronais, o que parece estar associado às alterações comportamentais observadas nos transtornos mentais.
O que diz a ciência sobre o assunto?
Diversas evidências apontam a associação entre inflamação subclínica e a patogênese de desordens mentais, tendo grande destaque no desenvolvimento da ansiedade, depressão e transtornos de humor. As pesquisas também relatam que há um estado de inflamação subjacente aos distúrbios neuropsiquiátricos.
Saúde mental
Nesse contexto, observa-se que exercícios aeróbicos e treinamento combinado reduziram marcadores inflamatórios em pessoas com transtornos mentais. Dessa forma, a redução da inflamação subclínica mediada pelo exercício físico parece estar associada a melhorias nas funções cerebrais e redução de sintomas em alguns transtornos mentais. O principal tipo de exercício utilizado em pessoas com transtornos mentais é o treinamento aeróbio de baixa a moderada intensidade, demonstrando potenciais benefícios para a saúde mental.
Obesidade
O mecanismo fisiopatológico da obesidade inclui estado de inflamação crônica de baixo grau, caracterizado pela ativação imunológica persistente e liberação de mediadores inflamatórios sistêmicos. Essa cascata inflamatória é estimulada pela interação complexa existente dentro do tecido adiposo. Nos portadores dessa condição, os adipócitos se encontram hipertrofiados, secretando quimiocinas que recrutam e ativam células imunológicas, promovendo microambiente a favor da inflamação.
Assim, na obesidade há intenso estresse oxidativo, causado por liberação de espécies reativas de oxigênio estimulada pela entrada de nutrientes existentes na obesidade, explicando o mecanismo da inflamação. Além disso, essa sobrecarga de nutrientes pode promover estresse do retículo endoplasmático e resposta de proteína desdobrada, ativando vias inflamatórias intracelulares.
Essa inflamação causa a liberação de citocinas inflamatórias como a TNF-α, que podem ativar várias moléculas de sinalização inflamatória, como JNK (c-Jun N-terminal kinase) e IKKbeta (Inhibitor of nuclear fator kappa-Bkinase subunit beta), causando ação deficitária da insulina em adipócitos e hepatócitos reduzindo sua sensibilidade a ela.
Adicionalmente, a inflamação crônica de baixo grau, impulsionada pela disfunção do tecido adiposo, emerge como um elo crucial na promoção de um microambiente tumorigênico, favorecendo a proliferação e metástase de células cancerígenas.
Essa inflamação generalizada de baixo grau, resultante de uma dieta desequilibrada e estilo de vida sedentário, está implicada em aproximadamente 30 a 35% de todas as neoplasias malignas. A sinalização proliferativa sustentada, o aumento das citocinas inflamatórias promotoras de tumores e as funções imunológicas alteradas observadas em indivíduos obesos criam um terreno fértil para a carcinogênese.
Quais as estratégias terapêuticas para lidar com a inflamação crônica?
Diante disso, surgem estratégias terapêuticas promissoras, como modulação da microbiota, prática física, dieta antioxidante e intervenção anti-inflamatória específica. O manejo deve ser individualizado e integrado à rotina clínica, com ênfase na prevenção.
A atividade física é amplamente reconhecida como uma intervenção não farmacológica fundamental na promoção do envelhecimento saudável. O exercício físico, principalmente o do tipo aeróbico e resistido, a musculação, estimulam a biogênese mitocondrial por meio da ativação de vias como a PGC-1α, promovendo a eliminação de organelas danificadas via autofagia e contribuem para a redução dos níveis de EROs e citocinas pró-inflamatórias.
Além disso, indivíduos mais ativos apresentam melhor desempenho de memória, maior autonomia funcional e menor risco de mortalidade precoce por diversas causas.
Ademais, a suplementação com creatina, tradicionalmente utilizada para ganho de massa muscular e melhora do desempenho esportivo, tem sido investigada quanto ao seu potencial em populações envelhecidas. A creatina atua na regeneração de ATP, na modulação do estresse oxidativo e na preservação da função mitocondrial.
Estudos recentes mostram que a suplementação de creatina pode melhorar a força muscular, a cognição e a composição corporal em idosos, além de reduzir marcadores de inflamação e apoptose. Além dela, a coenzima Q10 (CoQ10), componente fundamental da cadeia transportadora de elétrons, apresenta propriedades antioxidantes e papel fundamental na manutenção da função mitocondrial.
Com o envelhecimento, os níveis endógenos diminuem, o que prejudica a produção de ATP e favorece o acúmulo de estresse oxidativo. A suplementação com CoQ10 tem se mostrado eficaz na melhora da função mitocondrial, da capacidade cardiovascular e da saúde cognitiva.
Assim, os achados não apenas aprofundam a compreensão dos mecanismos inflamatórios que alimentam a progressão de doenças crônicas, mas também sinalizam a necessidade de estratégias terapêuticas que visem a modulação seletiva dessa resposta inflamatória.
Referências
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