O Lipedema é uma condição médica crônica que afeta predominantemente as mulheres adultas e é caracterizada pelo acúmulo anormal de gordura nas pernas, coxas, quadris e, ocasionalmente, nos braços.
Apesar de ser frequentemente confundido com obesidade ou linfedema, o Lipedema é uma condição distinta que pode ter um impacto significativo na qualidade de vida, afetando não apenas a aparência física, mas também o bem-estar emocional e físico dos indivíduos afetados.
O que diz a ciência sobre o Lipedema?
Estudos sugerem que a prevalência do Lipedema varia consideravelmente e, provavelmente, pode ser subestimado devido à falta de conhecimento e, eventualmente, diagnóstico inadequado.
Estima-se que afete entre 1% e 11% das mulheres em todo o mundo, embora esses números possam variar significativamente entre diferentes populações e regiões. No Brasil, a prevalência encontrada na população feminina foi de 12,3%.

Lipedema e a saúde da mulher
O Lipedema frequentemente manifesta-se em diferentes fases da vida da mulher, porém, sendo observado com maior frequência em momentos específicos, como, por exemplo:
1- Puberdade: muitas vezes, o Lipedema é inicialmente observado durante a puberdade, embora possa passar despercebido ou ser confundido com um ganho de peso comum associado a mudanças hormonais características desta fase.
2- Ciclo gravídico-puerperal: alguns casos de Lipedema podem manifestar-se de forma mais evidente durante a gravidez ou após o parto, devido às flutuações hormonais e ao aumento do peso corporal, comuns nestes períodos.
3- Climatério e menopausa: o Lipedema também pode aparecer ou piorar durante o climatério e a menopausa, outros períodos de mudanças hormonais significativas.

Afinal, quais são os estágios e como caracterizá-los?
A etiologia ainda não é totalmente estabelecida. No entanto, há estudos que sugerem a ocorrência de suscetibilidade poligênica associada aos distúrbios hormonais, microvasculares e linfáticos. Células inflamatórias, adipócitos hipertróficos, vasos sanguíneos anormais e disfunção linfática presentes no Lipedema estão associados ao dano tecidual e desenvolvimento de uma doença fibrótica.
O Lipedema pode ser classificado nos seguintes estágios:
Estágio 1: neste estágio inicial, os sinais e sintomas podem ser leves. O acúmulo de gordura é mais observado nas pernas, particularmente nos quadris, coxas e joelhos. Geralmente, não há edema visível neste estágio, mas a sensibilidade à pressão pode estar presente.
Estágio 2: neste estágio intermediário, os sinais e sintomas podem se tornar mais pronunciados. O acúmulo de gordura aumenta progressivamente nas áreas afetadas e o edema pode se tornar mais evidente ao longo do dia. Já a pele pode tornar-se mais sensível ao toque e propensa a hematomas e traumas.
Estágio 3: neste estágio mais avançado, há um acúmulo significativo de gordura nas pernas e possivelmente nos braços. O edema é mais proeminente, ocorrendo com mais frequência e intensidade. A pele pode apresentar alterações, como espessamento e fibrose, e as áreas afetadas podem ser extremamente sensíveis ao toque.
É importante ressaltar que essa classificação é descritiva e pode variar de acordo com diferentes sistemas ou profissionais de saúde. Além disso, algumas classificações podem considerar aspectos adicionais, como a extensão do desconforto ou a presença de complicações linfáticas.
Quais são as principais queixas dos pacientes com Lipedema?
Entre as queixas mais comuns dos pacientes com Lipedema, incluem-se dor moderada à intensa ao realizar pressão digital nos membros afetados, com a maioria podendo sentir dor espontânea.
O inchaço simétrico dos membros inferiores que termina abruptamente nos tornozelos é um dos sinais cardinais do Lipedema e que pode ser responsável por sensação de peso, fadiga e desconforto nas pernas.
Ademais, o inchaço e a dor pioram durante o clima quente e realização de exercícios, e não são aliviados pela elevação dos membros. Além disso, o peso em excesso nas pernas dificulta a mobilidade. São relatados, frequentemente, as ocorrências de hematomas, assim como a presença de varizes devido ao aumento da permeabilidade e fragilidade capilar presente na doença.
O sinal de Stemmer, o qual se faz uma prega com os dedos sobre a pele de um dos dedos do pé, é negativo, o que torna possível a diferenciação com linfedema.
Vale ressaltar também os problemas emocionais experimentados pelas mulheres com Lipedema, devido ao excesso de peso mal distribuído, que podem incluir constrangimento, ansiedade e depressão, os quais prejudicam a qualidade de vida como um todo.
Alguns pacientes desenvolvem sintomas leves que não progridem, enquanto outros experimentam progressão gradual ou acelerada. Os sintomas podem se intensificar em estágios avançados da doença, e isso pode se associar ao aumento de doenças cardiovasculares e renais.

Sobre as possibilidades de manejo do Lipedema
O tratamento do Lipedema geralmente é abordado de maneira multidisciplinar, envolvendo diferentes aspectos clínicos, físicos, nutricionais e, em alguns casos, cirúrgicos para alívio dos sintomas e melhoria do padrão estético.
Os principais objetivos do tratamento incluem redução dos sintomas, melhora da limitação funcional e prevenção da progressão da doença. Embora a perda de peso possa não ajudar, a prevenção de ganho de peso excessivo é importante para não dificultar o tratamento.
Ainda que as estratégias dietéticas não possam prevenir a distribuição desproporcional de gordura, elas podem reduzir a inflamação local, melhorando os sintomas, a saúde e o bem-estar de forma geral.
Apesar dos desafios impostos por esta patologia, como a falta de conhecimento sobre sua etiologia e um tratamento específico, a conscientização sobre essa condição é crucial para um diagnóstico precoce e para a implementação de estratégias de gerenciamento eficazes, visando melhorar a qualidade de vida dos indivíduos afetados.
Referências
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DI-ONYSIO, Silva et al. Lipedema: Um Desafio Clínico. Editor Chefe, p. 51.
MARTINEZ, Curro Millan et al. Efeitos clínicos e viabilidade de protocolo de ultrassom e drenagem linfática em pós-operatório de lipedema. Práticas Educativas, Memórias e Oralidades Rev. Pemo, v. 5, p. e11297-e11297, 2023.





